Mito, magia e religião em Roma

O mito é a primeira leitura do mundo, e o advento de outras abordagens do real não retira do homem aquilo que constitui a raiz de sua inteligibilidade. O mito é o ponto de partida para a compreensão do ser.

Assim, tudo o que pensamos e queremos se situa inicialmente no horizonte da imaginação, nos pressupostos míticos, cujo sentido existencial serve de base para todo o trabalho posterior da razão. A visão mítica está voltada para a vida interior ou subjetiva valorizando uma visão qualitativa e antropomórfica que reflita nossos anseios, medos ou esperanças sobre a realidade.

Contudo seria um erro imaginar que os povos antigos viviam em completa confusão em consequência de sua visão mítica de mundo. Nós mesmos, com nossa visão racionalista estamos sujeitos a confundir a realidade com nossos desejos, especialmente quando enfrentamos uma situação de grave constrangimento.

Este é o terreno onde brotam a mitologia e, também, a magia e a religião. No mundo mítico não existe fronteira nítida entre os seres. A visão da realidade não é naturalística, ao contrário, o modelo no qual ele se espelha é a sociedade humana. De acordo com essa visão, o homem não ocupa um lugar privilegiado nessa sociedade da vida.. O que de fato conta na atitude mítica é o sentimento da indestrutível unidade da vida, em resposta ao temível e inevitável fenômeno da morte. Se a morte atinge cada um individualmente, a vida vence no plano coletivo das espécies ou no plano da sociedade da vida.

Esse mesmo princípio de afirmação da vida vamos encontrar em outro fenômeno simbólico de grande importância: a magia.

A magia consiste em agir sobre a realidade usando meios simbólicos (palavras; poções etc.). O poder da magia busca influenciar tanto a conduta das pessoas como as forças da natureza. O agente da magia (mago, feiticeiro etc.0 não crê em leis naturais, mas em forças ocultas que só ele domina e cujos segredos ele transmite apenas a seus discípulos.

Com este comportamento esse ator reconhece a existência de um mundo invisível levando o ser humano a ingressar num terreno que é também da religião. È importante ressaltar que o ritual mágico é rigidamente regulamentado contendo a ideia da causalidade e a busca de dominar o desconhecido (técnica?).

No entanto, foi a religião a forma simbólica mais duradoura de relação do homem com o desconhecido. Os estudiosos divergem quanto à origem da religião. Mas a maioria recorre à oposição entre sagrado e profano quando busca definir esse fenômeno humano. Quanto ao que será profano ou secular, isto é, não religioso, há consenso, começando a divergência com a discussão sobre qual seria a mais antiga e primitiva manifestação do sagrado. Para alguns, esta seria o mana dos melanésios.

O mana é um poder ou uma força anônima e sem identidade. É a forma mais primitiva do que seria no futuro, a divindade ou deus, produto, por sua vez da da individuação e personificação da força anônima representada pelo mana. Mas entre o mana e os deuses como entidades personificadas situam-se, conforma a interpretação de estudiosos, os deuses funcionais. Estes eram espíritos ainda sem forma e sem rosto, presentes nas coisas ou associados a uma atividade humana.

Na religião da antiga Roma havia uma multidão desses deuses funcionais que foram acrescidas e/ou agrupados conforme a influência recebida, principalmente a grega. A relação dos romanos com os deuses era prática, as preces buscavam atender necessidades cotidianas. Haviam, também, os cultos domésticos (dirigidos pelo chefe de família) e os oficiais (regulamentados e dirigidos pelo Estado).

A influência oriental introduziu a prática dos cultos em Roma que, posteriormente, se rendeu a uma poderosa religião: o cristianismo. O cristianismo, uma dissidência do judaísmo (primeira religião monoteísta conhecida) surgiu na Palestina. Essa nova religião acreditava ser Jesus de Nazaré, nascido no principado de Augusto e crucificado no reinado de Tibério, o Messias anunciado pelos profetas hebreus e filho unigênito de Deus, mandado à Terra para redenção dos homens.

A difusão do cristianismo ocorreu, principalmente entre as camadas populares e os escravos, pois em sua prática, pregavam a resistência à dominação do homem e o culto a seres vivos, ofendendo os preceitos romanos de culto aos imperadores e foi, por isto, alvo de perseguições.

As perseguições, no entanto, fizeram crescer a nova religião atingindo , até mesmo, as camadas dominantes do Império, abrindo espaço para a institucionalização do cristianismo (em 313, Constantino concede liberdade de culto aos cristão; em 325 é definida a doutrina oficial da Igreja e, em 395, Teodósio transformou o cristianismo na religião de Estado do Império Romano). Ao longo desse processo, foram feitas a centralização da autoridade religiosa e a hierarquização da Igreja.