Livro: Sínteses da História

Apresentação

Este livro reúne os textos gentilmente cedidos à Casa de História pela Professora Patrícia Braik, bem como textos produzidos ou selecionados pelos professores da Casa de História.

À direita você encontrará a estrutura proposta pela Profª Patrícia, que pode, em alguns momentos, divergir da classificação temática utilizada no site. De qualquer maneira todo o conteúdo do livro encontra-se disponível também no índice temático.

Nota: esse material será publicado gradualmente.

História Antiga

Pedra de Roseta

Da Pré-História à História Antiga

Considerando a divisão da saga humana já tornada clássica, didaticamente marcamos o princípio da História como o surgimento das sociedades letradas, o que ocorreu há aproximadamente 5.000 anos. Assim, todo o período anterior (aproximadamente 47.000 anos) é considerado Pré-História.

Apesar de considerarmos que o chamado “homem pré-histórico” também fazia história (criava, produzia e modificava a natureza) adotaremos o critério mais utilizado:

A Pré-História

Apesar de hoje haver sérias controvérsias à datação abaixo considerada (a arquelogia e a antropologia contemporâneas têm demonstrado falhas mecanicistas nas divisões feitas) a utilizaremos por ser, ainda a mais popular.

Essa fase subdivide-se em outras três, considerando a evolução dos instrumentos utilizados pelos homens: pedra lascada (paleolítico); pedra polida (neolítico) e metais. Esta categorização foi feita por volta de 1812 pelo dinamarquês Christian Thomsen e, com algumas variações resultantes de descobertas posteriores, acabou por se tornar referência. Neste processo destaca-se a "Revolução Agrícola" ocorrida durante o neolítico, quando os homens sedentarizam-se, especializando suas tarefas e possibilitando o aumento do tempo livre o que permitiu o avanço técnico, o aumento da produção, o crescimento demográfico. No entanto, as primeiras comunidades tinham muito trabalho para produzir seu sustento considerando as intempéries naturais (esgotamento do solo, por exemplo). Assim tornou-se necessário organizar tarefas de irrigação – tanques, canais, diques – que facilitassem a vida sedentarizada.

As multidões empenhadas nessas tarefas exigiram um centro coordenador e planejador; daí surgiram as sociedades do trabalho com sua consequente divisão social. Devemos considerar ainda a necessidade de proteção dos excedentes produtivos, fazendo surgir aí as sociedades nas quais os guerreiros se tornam essenciais.

A divisão das comunidades em guerreiros e trabalhadores parece ter sido a origem das desigualdades sociais, acrescentando aí a necessidade de legitimá-la. O dispositivo mais comum para isso foi uso de mágicos e sacerdotes.

Está formada a ideia de Estado. Daí para frente, assistiremos, na maioria das sociedades de classes, o topo social sendo ocupado por chefes guerreiros que se pretendem defensores da comunidade e escolhidos pelo divino (o inexplicável).

As primeiras sociedades históricas

Sendo a escrita o critério para se distinguir a História da Pré-História (lembre-se que essa divisão vem sendo alvo de críticas!), sociedades históricas seriam aquelas que deixaram documentos escritos. Em diversos locais do planeta encontramos registros que podem ser considerados como escrita, no entanto, partiremos daquelas sociedades que se tornaram o berço de nossa civilização atual, a chamada civilização ocidental.

Todas elas apresentam padrões estruturais comuns: uma multidão de camponeses dominados e explorados por uma forte organização estatal integrada por guerreiros e sacerdotes sob a chefia de um monarca autorizado pelos deuses a dominar a sociedade (teocracia).

Antiguidade Clássica: Grécia

Formação e evolução

  • Origem: povos indo-europeus (jônios, aqueus, eólios, dórios) estabelecidos na região a partir de, aproximadamente, de 1950 a.C.
  • Civilização Micênica (entre 1950 e 1100 a.C.): povoamento e formação.
  • Período Homérico (1100 a 800 a.C.): desorganização econômica gerada pela invasão dória. No final do período surgem as primeiras cidades-Estados.
  • Período Arcaico (800 a 500 a.C.): evolução e amadurecimento das cidades-Estados, destacando-se Atenas e Esparta.
  • Período Clássico (500 a 338 a.C.): as cidades-estados atingem sua maturidade com o esplendor da democracia ateniense, na época de Péricles. Em 338, Felipe da Macedônia põe fim à independência das cidades-Estados.
  • Período Helenístico, constituído de duas fases:
    • de 338 a 323 a.C.: ascensão de Alexandre Magno formando vasto império.
    • De 323 a 275 a.C.: fragmentação do império e nascimento das monarquias helenísticas (Macedônia; Pérgamo; Ásia e Egito).

As pólis gregas

As pólis remontam ao processo de desorganização econômico-social resultante da invasão dória e têm como traço comum a origem de organizações familiares agro-pastoris que se espalharam pelo acidentado território hoje conhecido como Grécia. Em meados do século VI a.C., elas já somavam 1500 unidades com governos próprios.

A grande novidade na sociedade grega do período arcaico foi a invenção da propriedade privada. Numa sociedade com claro predomínio social do guerreiro, esta inovação trouxe um personagem novo, o guerreiro-proprietário. A divisão social (baseada em pequenos, médios e grandes proprietários) tornava mais complexa a sociedade grega que as anteriores.

A consequência foi a transferência do poder de antigos reis para um grupo restrito de poderosas famílias de guerreiros que haviam se tornado proprietárias e que podemos chamar de aristocracia.

A repartição desigual de terras gerou uma vasta classe de empobrecidos que, necessitando de empréstimos tomados aos mais ricos para sobreviver, passaram a sofrer a escravidão. E a necessidade de fugir da escravização levou os mais pobres a ocuparem novas áreas ao longo do mediterrâneo (sul da Itália e Sicília, às margens do mar Negro).

Tal expansão colonizadora incentivou as atividades comerciais propiciando o surgimento de uma nova aristocracia – gregos enriquecidos pelo comércio. Com isto, a antiga aristocracia se vê diante de um problema: além das pressões populares para deter a pauperização, a pressão dessa nova aristocracia para participar das decisões políticas das pólis.

Atenas, Esparta, Mégara, Corinto, Argos e Mileto foram as principais cidades-estados gregas. As duas primeiras ficaram célebres por suas profundas diferenças. O caso de Esparta, com seu militarismo, foi atípico e representou uma exceção entre as pólis gregas, cuja evolução geral assemelhou-se mais ao desenvolvimento de Atenas.

Esparta

Esparta foi fundada pelos dórios na planície da Lacônia, situada na península do Peloponeso, ás margens do rio Eurotas.

Isolada pelas montanhas e sem saída para o mar, fechada sobre si mesma e avessa às influências externas, Esparta era uma cidade-estado conservadora, fundada num governo oligárquico-autoritário e numa educação militar.

A economia baseava-se na agricultura, ficando o comércio e a indústria em segundo plano. O Estado dividia a terra em lotes iguais distribuídos entre os cidadãos-soldados conjuntamente com um determinado número de escravos encarregados de seu cultivo. O soldado espartano dedicava-se apenas à formação militar e não exercia nenhuma atividade econômica.

A sociedade espartana estava dividida em três classes:

  • esparciatas: constituíam a aristocracia, eram os cidadãos-soldados (ou “iguais”) e monopolizavam as instituições políticas;
  • periecos: homens livres, mas sem cidadania, dedicavam-se à agricultura, ao comércio e ao artesanato; 
  • hilotas: escravos, realizavam todos os trabalhos manuais e constituíam a maioria da população de Esparta.

Segundo a tradição, a Constituição espartana foi redigida por um legislador mítico, Licurgo, e não podia ser modificada. As instituições políticas compunham-se:

  • diarquia: dois reis;
  • gerúsia: conselho aristocrático formado por 28 anciãos;
  • ápela: assembleia militar encarregada de votar as leis propostas pela gerúsia;
  • eforado: onde estava o verdadeiro poder, era controlado por cinco éforos ou vigilantes, que controlavam a vida pública e particular de todos os cidadãos espartanos.

A cultura espartana aboliu as artes e as letras limitando seus esforços na educação de seus cidadãos que eram preparados desde os sete anos de idade para serem fortes e disciplinados submetendo-se aos interesses do Estado.
A mulher espartana gozava de certa liberdade se a compararmos com a ateniense: era valorizada como procriadora de guerreiros e geria a economia doméstica, mas nunca alcançou status político.

Atenas

Atenas foi fundada pelos jônios na península da ática, próxima ao porto de Pireu. A proximidade do mar Egeu contribuiu para que Atenas desenvolvesse a navegação e o comércio e participasse do movimento de colonização (Segunda Diáspora Grega).

A economia ateniense baseava-se na agricultura, indústria e comércio. Sua sociedade dividia-se em três classes:

  • cidadãos: subdividida em três outros setores
    • eupátridas (aristocracia agrária);
    • georgoi (pequenos agricultores) e
    • demiurgos (artesãos e comerciantes);
  • metecos: estrangeiros residentes em Atenas, dedicavam-se, principalmente ao comércio e à indústria;
  • escravos: maior parte da população que desempenhavam todas as atividades manuais, desde serviços caseiros até a agricultura.

Sua história política é mais complexa que a de Esparta: a monarquia foi a primeira forma de governo adotada, cujo rei recebia o título de basileus.

Essa autoridade, foi posteriormente substituída por um regime aristocrático-oligárquico controlado pela aristocracia agrária. No lugar do basileus governavam nove arcontes (arcontado), magistrados eleitos anualmente pelo areópago, conselho eupátrida que exercia o poder legislativo. As leis propostas pelo areópago eram votadas pela eclésia, assembleia popular formada pelos cidadãos.

A participação de Atenas na colonização dos mares Negro e Mediterrâneo impulsionou sua indústria e comércio, enriquecendo os demiurgos; e, ao empobrecer os pequenos agricultores com a concorrência, aumentou a escravidão por dívidas e o desemprego, levando a cidade a intensa crise político-social. Tal crise abriu espaço para o surgimento dos legisladores:

  • Drácon: em 624 a. C., arconte eupátrida, elaborou um código escrito para Atenas, cuja severidade contribuiu para aumentar a insatisfação popular.
  • Sólon: em 594 a. C., magistrado e poeta, aboliu a escravidão por dívidas, suspendeu as hipotecas sobre terras, incrementou o comércio e a indústria. Redividiu, também, a sociedade ateniense em quatro classes que, segundo o critério de riqueza, participariam do arcontado, do areópago, da bulé (conselho dos 500), da eclésia e da heliéia (tribunal). O insucesso das reformas desencadeou insurreições populares e possibilitou a conquista do poder pelos tiranos.

Psístrato, primeiro tirano ateniense, em 560 a. C., realizou uma reforma agrária que enfraqueceu os eupátridas. Seus filhos, Hiparco e Hípias, perderam o apoio dos demos e o poder foi conquistado por Iságoras, tirano anti-popular. Este, por sua vez, foi derrubado por Clístenes, tirano cujas reformas implantaram o regime democrático.

Da democracia participavam apenas os cidadãos e estavam marginalizados os estrangeiros, as mulheres e os escravos. Criou-se também o ostracismo. A democracia ateniense atingiu o apogeu durante o século de Péricles.

Esplendor e decadência da Grécia

Durante o século V a.C., a Grécia se envolveu em guerras contra o expansionismo persa e, saindo vitoriosa, atingiu sua glória econômica e cultural (Grécia Clássica).

Em 477 a.C., Atenas reuniu as cidades gregas da Ásia Menor e as ilhas do Egeu em uma aliança marítima chamada Liga de Delos, transformando a cidade-estado na mais poderosa da Grécia. Tal feito deu ao período o nome de “Século de Péricles”, quando Atenas era, ao mesmo tempo, democrática e imperialista chegando a dominar 400 cidades-estados.

As rivalidades entre Atenas e Esparta (Liga de Delos contra Liga do Peloponeso) levou à Guerra do Peloponeso (431 a.C.) que, encerrada com a vitória de Esparta, em 404 a.C.), levou ao enfraquecimento da Grécia e a consequente invasão e domínio macedônio a partir de 338 a.C.).

A cultura clássica grega

Os gregos possuíam numerosos deuses com forma e sentimentos humanos, daí sua religião ser considerada antropomórfica. Tais deuses comandavam as forças naturais e humanas. Além deles existiam os semideuses ou heróis, autores de grandes feitos ou vítimas da fatalidade do destino.

A religião era o traço de união entre os gregos, cujo pan-helenismo se manifestava através dos oráculos, mistérios e jogos (os mais famosos eram as Olimpíadas). As artes plásticas desenvolveram-se, principalmente, no campo da arquitetura (estilos dório, jônio e coríntio). Nas letras sobressaem a poesia épica (destaque para Homero e sua Ilíada) e o teatro (Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e Aristófanes).

O apogeu da ciência e da filosofia se dá na Escola de Atenas, onde se reuniam os principais pensadores do período. Tales de Mileto é considerado seu fundador. Sócrates, Platão e Aristóteles assinalaram o ápice da filosofia grega. Platão concebeu (inspirado em Esparta) uma República governada por filósofos. Aristóteles criou a lógica formal e sua obra Organon (física, metafísica, política, retórica e moral) sistematizou o saber de sua época e influenciou, mais tarde, a filosofia escolástica medieval).

No entanto, foi no campo da política que os gregos mais nos legaram: as pólis e a criação de códigos de leis escritas permitiu aos gregos a consciência do que é o espaço público (isto é, de todos), fazendo assim nascer a política – “arte de decidir através da discussão pública” – e, mesmo que o princípio da cidadania ficasse ainda restrito aos cidadãos, ele se estabelece e servirá de paradigma para a sociedade ocidental.

Antiguidade Clássica: Roma

Formação e evolução

Situada na planície do Lácio, às margens do rio Tibre e próxima do litoral (mar Tirreno), a cidade de Roma originou-se da fusão de dois povos: os latinos e os sabinos.

Inicialmente uma aldeia pequena e pobre, numa data difícil de precisar, Roma foi conquistada por seus vizinhos etruscos que fizeram dela uma verdadeira cidade. Sofreu influência, também, dos gregos que, ao sul, haviam criado a Magna Grécia.

A sociedade romana, assim como a grega, é exemplo de sociedade escravista, embora difira desta em alguns aspectos fundamentais. O processo de concentração de terras pela aristocracia patrícia jamais foi bloqueado, e o poder e a influência dessa nobreza permaneceram praticamente inalterados até o fim.

O elemento central da grande estabilidade desfrutada por Roma foi a instituição do latifúndio escravista, que, estabelecido ali numa escala desconhecida pelos gregos, proporcionou aos patrícios o controle da sociedade. À solidez econômica e política dos patrícios somou-se o talento militar dos romanos, o que fez de Roma, cidade-Estado, a sede de um poderoso império.

Como os gregos, os romanos iniciaram sua história sob o regime monárquico, experimentaram a república e decaíram após a construção de um império universal muito semelhante aos orientais.

Sua história é dividida nos seguintes períodos:

  • Monarquia (753-509 a. C.);
  • República (509-27 a.C);
  • Império (27 a.C.-476).

Roma: da Monarquia à República

Segundo a tradição, durante a Monarquia, Roma foi governada por sete reis (o rei desempenhava as funções de supremo juiz, sumo sacerdote e comandante do exército).

O poder era limitado pelo senado, conselho aristocrático formado pela nobreza patrícia (senhores de terras que, segundo a lenda, descendiam dos primeiros habitantes de Roma), e por uma assembleia popular, formada pelos cidadãos romanos que votavam as leis propostas pelo senado. Os quatro primeiros reis foram, alternadamente, latinos e sabinos. Os três últimos foram etruscos e governaram Roma despoticamente. Em 509 a.C., Tarquínio, o Soberbo, foi deposto por uma revolução, que aboliu a Monarquia, expulsou os etruscos e impôs a República em Roma.

No início da República, a sociedade romana estava dividida em quatros classes:

  • patrícios: aristocracia rural;
  • plebeus: camponeses, comerciantes e artesãos;
  • clientes: não-proprietários que, para sobreviver, colocavam-se a serviço de um patrício, denominado patrono;
  • escravos: pouco numerosos no início da República, ganharão aumento gigantesco e importância em consequência das guerras expansionistas, quando as conquistas externas transformaram a economia romana em um sistema de produção escravista.

As instituições políticas, controladas pelos patrícios, eram:

  • os comícios (assembleias populares encarregadas de votar as leis e eleger os magistrados): havia dois tipos de comícios, os centuriais (cidadãos divididos por sua riqueza em cinco classes que, por sua vez, dividiam-se em centúrias, que eram unidades militares do exército) e os tribais (os cidadãos eram agrupados em tribos e tinham direito a um voto) – como as divisões e subdivisões eram feitas por critérios patrícios, estes sempre venciam (patrícios comandavam 124 centúrias das 193 existentes);
  • a magistratura: os magistrados, eleitos pelos comícios, tinham um mandato de um ano e cada magistratura era exercida concomitantemente por várias pessoas; os magistrados mais importantes eram os cônsules (dois homens que, como chefes da República, presidiam os comícios, o senado e, em tempo de guerra, comandavam o exército; os pretores cuidavam da justiça; os censores recenseavam a população e cuidavam a vigilância dos costumes; os questores arrecadavam impostos e os edis se encarregavam dos espetáculos oficiais e da segurança pública; 
  • o Senado: encarregado da elaboração das leis, era o poder de fato da República; era composto por 300 senadores, de origem patrícia, que controlava as finanças do Estado, a religião, a administração e a política exterior; em caso de crise extrema, o senado tinha o poder de nomear um ditador, que governaria por um prazo de seis meses.

As lutas por reformas

A marginalização política, a discriminação social e a desigualdade econômica levaram a plebe romana a se rebelar marcando um longo período (dois séculos desde o início da República) de lutas contra os patrícios – ao longo desde período os patrícios tentavam reduzir a revolta popular lançando mão da política do pão e circo, tentando fazer crer que o expansionismo iniciado gerava riquezas, também, à plebe.

Em 493 a.C., a revolta do Monte Sagrado desencadeou as lutas sociais em Roma: os plebeus abandonaram a cidade e somente retornaram após várias concessões feitas pelos patrícios. As camadas populares conquistaram o direito de eleger seus próprios magistrados (tribunos da plebe) que, eleitos através de plebiscitos podiam vetar ou suspender aplicação de atos dos magistrados ou decisões do senado que viessem a prejudicar interesses dos plebeus.

Em 450 a.C., com a criação da Lei das 12 Tábuas, os plebeus conquistaram a igualdade jurídica impondo a transformação das leis orais em leis escritas, tal legislação seria aplicada a ambas as classes.

Em 445 a.C., a Lei Canuléia estabeleceu a igualdade civil ao autorizar o casamento de patrícios e plebeus

Em 367 a.C., a Lei Licínia instaurou a igualdade política ao reconhecer aos plebeus o direito de eleger os representantes para as diversas magistraturas.

Em 326 a.C., outra medida importante aboliu a escravidão por dívidas.

Finalmente, em 300 a.C., os plebeus conquistaram a igualdade religiosa, adquirindo o direito ao exercício de cargos sacerdotais.

Expansionismo e transição para o Império Romano

A expansão romana pela Itália (centro e sul) e a conquista da magna Grécia colocavam em perigo os interesses cartagineses no ocidente do Mediterrâneo e acabou desencadeando as Guerras Púnicas entre Roma e Cartago (264-246 a.C.). Vencedora, Roma estabeleceu seu domínio sobre o Mediterrâneo ocidental abrindo caminho para a conquista dos reinos helenísticos (Macedônia, Síria e Egito) e o avanço sobre o Mediterrâneo oriental.

As mudanças sócio-econômicas ocorridas em Roma a pós a conquista do Mediterrâneo (Mare Nostrum), foram responsáveis pela crise da República que geraram: a consolidação do sistema escravista de produção; a ruína dos pequenos agricultores e a concentração de terras em mãos da aristocracia e o surgimento de uma nova classe de grandes comerciantes, os “homens novos” ou cavaleiros. As lutas sociais que se seguiram assinalaram o declínio do regime republicano.

Os irmãos Tibério e Caio Graco foram sucessivamente eleitos tribunos da plebe e, entre 133-121 a.C., procuraram realizar reformas para solucionar a crise da República. Tais reformas buscavam realizar a distribuição de terras e a recomposição da classe camponesa além de aumentar a participação dos cavaleiros na administração do Estado. Estas propostas esbarraram na resistência da aristocracia chegando ao assassinato dos irmãos Graco.

O fracasso das reformas agravou a crise e abriu caminho para as ditaduras de Mário e Sila. Mário, “homem novo” apoiado pelo exército (profissionalizado e assalariado por ele), realizou reformas favorecendo os cavaleiros e as camadas populares (que entraram em massa para o exército).

O general Sila, aristocrata, restabeleceu privilégios de sua classe e a autoridade do senado. Estas ditaduras, apoiadas no exército, permitiram a intervenção dos militares nos assuntos políticos aprofundando a crise da monarquia.

A rebelião de Sertório, na Espanha em 78 a.C., a insurreição de Espártaco (liderando um exército de 50 mil escravos e plebeus sublevados entre 73 e 71 a.C.) e a conjuração de Catilina que, em 66 a.C., pregava a anulação de dívidas, a proscrição da nobreza senatorial e a realização de reforma agrária, aceleraram o declínio da República.

Em uma aliança formada entre um representante da plebe (Júlio César), um general vencedor da revolta de Sertório (Pompeu) e um ex-cônsul enriquecido (Crasso) estabeleceu-se o triunvirato sob o qual ampliou-se o expansionismo romano (Gália e parte da Bretanha).

Com a morte de Crasso instalou-se uma luta entre Pompeu e Júlio César que, à frente de poderoso exército obrigou Pompeu a fugir e instalou, em 49 a.C., um regime pessoal – a ditadura vitalícia.

O assassinato de César, através de uma conspiração do Senado, fez criar o segundo triunvirato que, também vivendo lutas internas, levou ao poder Otávio, assinalando o fim da República e o nascimento do Império, em 31 a.C.

O Império Romano

Durante o principado (30 a.C. e 14 d.C.), misto de república e monarquia, Otávio concentrou todo o poder, tornando-se príncipe do Senado, imperador do exército, tribuno da plebe, sumo-pontífice e Augusto (como ficou conhecido desde então).

Augusto promoveu a aliança entre nobreza e os cavaleiros, agrupando-os em duas ordens: senatorial e equestre. Dividiu, também, as províncias do império em senatoriais e imperiais gerando estabilidade política, prosperidade econômica e desenvolvimento intelectual. A pax romana (assentada em violenta repressão) se estendeu por todo o império e o século I, da era cristã, ficou conhecido como “Século de Augusto”.

Após a morte de Augusto em 14 d.C., sucederam-se várias dinastias que, ora convivendo com as exigências criadas pelo controle sobre vasto império, ora tentando conter pressões internas (acrescidas pela presença ameaçadora dos bárbaros em suas fronteiras), levou Roma, lentamente ao declínio a partir do século III da era cristã (fase conhecida como Baixo Império).

A decadência do Império Romano deu-se por questões inerentes à sua própria existência e às contradições criadas: a vasta extensão territorial dominada exigindo cada vez um número maior de soldados e fiscais, a paralisia da economia interna gerada pelo afluxo das riquezas coloniais e o reaparecimento de grande contigente populacional empobrecido (em contraste com o luxo e a riqueza da nobreza e dos comerciantes). Nova onda de tensões, agora internas externas, pioradas com a inépcia política de alguns governantes (ora tolerantes, ora violentamente repressores) fragilizou o controle e determinou a decadência da pax, favorecendo um processo de violência interna e externa gerando a ruralização da população romana. Este processo fragilizou ainda mais o império que, convivendo com insurreições coloniais e perda de rendimentos, chegou a lançar mão de estrangeiros (bárbaros) para vigiar as fronteiras.

Ondas de saques e incursões estrangeiras aumentaram o processo ruralizador da sociedade romana que buscava se proteger no campo sobrevivendo do que produzia e se entregando à proteção de quem lhes oferecesse guarida.

Aos saques seguiram-se as invasões, principalmente de povos germânicos.

O Império ainda tentou conviver com estes estrangeiros através de tratados, mas a luta entre os diversos grupos bárbaros não permitiu a sobrevivência de nenhuma aliança e, em 476, Odoacro (hérulo) assenhorou-se da Itália, corou-se como rei tornando-se símbolo da queda do maior império da Antiguidade.

Mito, magia e religião em Roma

O mito é a primeira leitura do mundo, e o advento de outras abordagens do real não retira do homem aquilo que constitui a raiz de sua inteligibilidade. O mito é o ponto de partida para a compreensão do ser.

Assim, tudo o que pensamos e queremos se situa inicialmente no horizonte da imaginação, nos pressupostos míticos, cujo sentido existencial serve de base para todo o trabalho posterior da razão. A visão mítica está voltada para a vida interior ou subjetiva valorizando uma visão qualitativa e antropomórfica que reflita nossos anseios, medos ou esperanças sobre a realidade.

Contudo seria um erro imaginar que os povos antigos viviam em completa confusão em consequência de sua visão mítica de mundo. Nós mesmos, com nossa visão racionalista estamos sujeitos a confundir a realidade com nossos desejos, especialmente quando enfrentamos uma situação de grave constrangimento.

Este é o terreno onde brotam a mitologia e, também, a magia e a religião. No mundo mítico não existe fronteira nítida entre os seres. A visão da realidade não é naturalística, ao contrário, o modelo no qual ele se espelha é a sociedade humana. De acordo com essa visão, o homem não ocupa um lugar privilegiado nessa sociedade da vida.. O que de fato conta na atitude mítica é o sentimento da indestrutível unidade da vida, em resposta ao temível e inevitável fenômeno da morte. Se a morte atinge cada um individualmente, a vida vence no plano coletivo das espécies ou no plano da sociedade da vida.

Esse mesmo princípio de afirmação da vida vamos encontrar em outro fenômeno simbólico de grande importância: a magia.

A magia consiste em agir sobre a realidade usando meios simbólicos (palavras; poções etc.). O poder da magia busca influenciar tanto a conduta das pessoas como as forças da natureza. O agente da magia (mago, feiticeiro etc.0 não crê em leis naturais, mas em forças ocultas que só ele domina e cujos segredos ele transmite apenas a seus discípulos.

Com este comportamento esse ator reconhece a existência de um mundo invisível levando o ser humano a ingressar num terreno que é também da religião. È importante ressaltar que o ritual mágico é rigidamente regulamentado contendo a ideia da causalidade e a busca de dominar o desconhecido (técnica?).

No entanto, foi a religião a forma simbólica mais duradoura de relação do homem com o desconhecido. Os estudiosos divergem quanto à origem da religião. Mas a maioria recorre à oposição entre sagrado e profano quando busca definir esse fenômeno humano. Quanto ao que será profano ou secular, isto é, não religioso, há consenso, começando a divergência com a discussão sobre qual seria a mais antiga e primitiva manifestação do sagrado. Para alguns, esta seria o mana dos melanésios.

O mana é um poder ou uma força anônima e sem identidade. É a forma mais primitiva do que seria no futuro, a divindade ou deus, produto, por sua vez da da individuação e personificação da força anônima representada pelo mana. Mas entre o mana e os deuses como entidades personificadas situam-se, conforma a interpretação de estudiosos, os deuses funcionais. Estes eram espíritos ainda sem forma e sem rosto, presentes nas coisas ou associados a uma atividade humana.

Na religião da antiga Roma havia uma multidão desses deuses funcionais que foram acrescidas e/ou agrupados conforme a influência recebida, principalmente a grega. A relação dos romanos com os deuses era prática, as preces buscavam atender necessidades cotidianas. Haviam, também, os cultos domésticos (dirigidos pelo chefe de família) e os oficiais (regulamentados e dirigidos pelo Estado).

A influência oriental introduziu a prática dos cultos em Roma que, posteriormente, se rendeu a uma poderosa religião: o cristianismo. O cristianismo, uma dissidência do judaísmo (primeira religião monoteísta conhecida) surgiu na Palestina. Essa nova religião acreditava ser Jesus de Nazaré, nascido no principado de Augusto e crucificado no reinado de Tibério, o Messias anunciado pelos profetas hebreus e filho unigênito de Deus, mandado à Terra para redenção dos homens.

A difusão do cristianismo ocorreu, principalmente entre as camadas populares e os escravos, pois em sua prática, pregavam a resistência à dominação do homem e o culto a seres vivos, ofendendo os preceitos romanos de culto aos imperadores e foi, por isto, alvo de perseguições.

As perseguições, no entanto, fizeram crescer a nova religião atingindo , até mesmo, as camadas dominantes do Império, abrindo espaço para a institucionalização do cristianismo (em 313, Constantino concede liberdade de culto aos cristão; em 325 é definida a doutrina oficial da Igreja e, em 395, Teodósio transformou o cristianismo na religião de Estado do Império Romano). Ao longo desse processo, foram feitas a centralização da autoridade religiosa e a hierarquização da Igreja.

A cultura e o direito romanos

Como consequência da expansão de Roma para o Oriente, a cultura desenvolvida pelos romanos sofreu forte influência da cultura grega. O apogeu da cultura romana ocorreu durante o “Século de Augusto” com relevância para a literatura (Cícero, Virgílio, Horácio, Ovídio, Tito Lívio e Plutarco, como destaques).

No entanto, o mais importante legado foi, sem dúvida o Direito Romano, originado da Lei das Doze Tábuas, dividia-se em três ramos:

  • jus civile (direito civil), baseava-se nas fontes tradicionais — a lei e o costume — e era aplicado apenas aos homens livres que possuíam a cidadania romana;
  • jus gentium (direito das gentes), surgiu como decorrência da expansão romana e da conquista dos povos da Itália. Era aplicável aos habitantes do Império — homens livres sem a cidadania romana — e serviu de base para o desenvolvimento do direito internacional;
  • jus naturale (direito natural), era uma filosofia jurídica que afirmava que, como fim ideal e princípio universalmente válido, a justiça e o direito deveriam refletir a ordem racional da natureza (“O verdadeiro direito é a razão justa, consoante à natureza, comum a todos os homens, consoante, eterna.” CÍCERO).

A admiração que os “bárbaros” europeus tinham pelas instituições e cultura romanos, permitiram a sobrevivência de grande parte do seu legado que, adaptado, é matriz do Mundo Ocidental.

O Islã

Nascimento do Islã

  • Árabes: povos originários dos semitas (judeus, fenícios e assírios):
    • adoravam Alá – deus supremo –; entretanto, cada tribo adorava seu ídolo: o mais importante era a pedra preta guardada na Caaba, casa em Meca (essa pedra teria sido entregue por Alá a Abraão, pai dos semitas).
  • O destino foi mudado por um líder que propôs a unidade das tribos e a conquista da Terra pelo povo árabe:
    • Maomé: nascido em Meca, 570, pastor, teria recebido uma mensagem de Alá: a salvação aconteceria quando todos se submetessem à vontade divina – o Islã;
  • Seus ensinamentos foram reunidos no Corão, livro sagrado do Islã. Pontos principais:
    • rezar cinco vezes ao dia na direção de Meca;
    • ficar em jejum durante os 40 dias do Ramadã, mês sagrado;
    • praticar a caridade;
    • visitar Meca pelo menos uma vez durante a vida.
  • Tais ensinamentos fortaleceram os laços familiares entre os árabes – a mulher deixou de ser escrava para ser companheira; a poligamia fixou o seu limite em 4 esposas.

Expansão da nova crença

  • Perseguido pelos chefes de Meca, Maomé se refugia em Latribe – Medina, a cidade do profeta.
  • A partir dessa fuga passou a pregar a Guerra Santa contra os infiéis, conquista seguidores em Medina e volta a Meca, dominando-a e destruindo todos os ídolos menos a pedra preta.
  • Com essa vitória a religião se espalha pela Arábia e, em 632, quando morre, Maomé havia conseguido unificar todas as tribos árabes.

O Império Árabe

  • Com a morte do profeta, seu sogro, Abu-Becker, se proclama califa – sucessor (misto de chefe político e religioso).
  • Omar, segundo califa, inicia a expansão muçulmana (Pérsia e Império Bizantino) – a partir daí atingem Egito e Líbia, dominando Cartago.
  • Ali, terceiro califa aumenta o império mas surgem dissensões interna, guerra civil e duas dinastias passam a governar o Império Muçulmano: Omeíadas e Abássidas.
  • Sob a dinastia Omeíada a expansão territorial atingem o Turquestão, o Cáucaso e a Armênia (chegam a atingir a Índia), transferem sua capital para Damasco; no norte da África conquistam Túnis, Argélia, Marrocos, atravessam o estreito de Gibraltar, atingem a península ibérica e são detidos na França, em 732. Retrocedem ‘a Espanha ali permanecendo até o século XV.
  • Sob os Abássidas (750) a capital é transferida para Bagdá. O império atinge até a China e ocorre grande desenvolvimento científico e artístico; ocorre a ruptura do mundo árabe, sonhada por Maomé: em 760, os árabes da Espanha declaram independência; em 968, os árabes do Egito se emancipam — são formados Estados muçulmanos não completamente árabes.

Os Turcos

  • Originários da Mongólia, entram em contato com os árabes na Pérsia se convertendo ao islamismo e se tornando guerreiros de Alé e guarda pessoal dos califas.
  • Em 1055, tomam Bagdá substituem o califa por seu sultão e submetem todos os árabes da Ásia e da África, ameaçando os cristãos europeus.

A cultura muçulmana

  • Não é original, assimilou dos povos dominados tendo como característica predominante a tolerância cultural e a fantasia.
  • Foram difusores dos conhecimentos adquiridos durante o expansionismo:
    • refinaram da já refinada ciência chinesa: papel, bússola, pólvora, cultivo do arroz, do algodão, da cana-de-açúcar;
    • desenvolveram a produção de tecidos, jóias, tapetes e vidro;
    • dedicaram-se à química (medicamentos, perfumes etc.);
    • desenvolveram a cartografia e a astronomia, bem como a álgebra e a trigonometria;
    • introduziram na Europa as obras de Arquimedes e Euclides e os números arábicos de inspiração indiana;
    • traduziram e divulgaram as obras de Platão e Aristóteles;
    • criaram clínicas e escolas médicas;
    • sua literatura foi marcada pela fantasia.
  • No campo das artes plásticas, como o Corão proibia a representação de figuras humanas, desenvolveram refinada arquitetura com o uso do arco e ricos ornamentos — os arabescos.

História Geral

A História é uma ciência do presente. Assim, para entender as forças que movem o mundo contemporâneo necessitamos conhecer os elementos conformadores de nosso cotidiano.

É nessa perspectiva que iniciamos pelo conhecimento da raízes fundadoras do capitalismo, sistema que se consolidou na era contemporânea e que, com suas contradições, permitiu o surgimento de novos projetos.

É importante ressaltar que, apesar de iniciarmos pelo estudo da História da Europa ocidental, fazemo-lo com o objetivo de analisar o contexto de surgimento do capitalismo e, não, sujeitado-nos a uma visão eurocêntrica da evolução humana, como se perceberá ao longo dos textos.

Despertar da Europa

Ironizando a visão renascentista que considerava a Idade Média como “uma noite de mil anos” apresentamos aqui os elementos constitutivos da Europa ocidental, berço do capitalismo, quando da era feudal e de sua crise. Demonstrando, assim, que é através de idas e vindas, contradições e acertos que a aventura humana se constrói.

Alta Idade Média

O período conhecido como Idade Média teve uma duração de aproximadamente 1000 anos, com início no século V e final no século XV. É comum para facilitar o estudo desse período dividi-lo em duas épocas; sendo os primeiros cinco séculos chamados de Alta Idade Média e os cinco restantes de Baixa Idade Média.

A Alta Idade Média teve início com a invasão, ocupação e assentamento dos vários povos germânicos (como francos, visigodos, suevos, ostrogodos, lombardos, anglo-saxões) em diversas regiões europeias ocidentais, o que deu origem a inúmeros reinos. Com as grandes modificações introduzidas com as invasões bárbaras, a população passa a ser composta por uma maioria camponesa, dominada pelos proprietários de terras, vivendo em condições de grande pobreza, sofrendo constantes períodos de fome e ataques dos povos inimigos.

A economia agrária produzia poucos excedentes, além daqueles necessários para o sustento do próprio grupo, que passou a conviver naquela comunidade.

A atividade comercial realizada com moedas não desapareceu totalmente, mas restringiu-se um pouco, devido a crise generalizada, que rondava a Europa neste momento. Nessa época as cidades tiveram pouca importância e várias foram inclusive abandonadas.

Um fato importante que marcou o período da Alta Idade Média foi a mudança na forma de trabalho. A escravidão característica da Antiguidade Clássica foi substituída pela servidão.

O servo distingue-se do escravo fundamentalmente, por não ser propriedade do senhor que não pode portanto, dispor de sua pessoa. Sua condição é a de um trabalhador semi-livre pois está preso ao senhor, que lhe deve proteção, e a terra que dele recebeu, não tendo portanto, o direito de dispor livremente de si mesmo.

A servidão é portanto uma modalidade de trabalho compulsório, aqui entendido como aquele trabalho que o indivíduo é obrigado a realizar não tendo poder de decisão quanto ao seu início ou término e não podendo abandoná-lo por vontade própria.

O Império mais importante do período da Alta Idade Média foi o Carolíngeo, assim chamado por ter sido Carlos Magno, seu primeiro imperador. Ele sonhou reunificar sob o domínio dos francos, todo o território que antes pertencera ao Império Romano.

À contenção das últimas ondas de invasões bárbaras (muçulmanas, húngaras e normandas), no século X, seguiu-se uma fase de relativa tranquilidade em relação às ameaças externas. A sociedade europeia ocidental havia passado por profundas transformações e já não apresentava mais as características de pânico que marcaram séculos passados.

Baixa Idade Média

A Baixa Idade Média é considerada o “despertar da Europa”. Nessa fase da história europeia, a sociedade que se desenvolveu e dominou todo o período é chamada feudal - nome derivado da instituição denominada feudo.

“Feudo” é sinônimo de “benefício”. Significa um bem ou direito cedido a alguém em troca de fidelidade e várias obrigações, em especial militares. Aquele que cede o bem se torna suserano do que recebe e que passa a ser seu vassalo. Recebendo a terra, o vassalo passava a contar com um meio seguro de subsistência (já que viveria da renda e do trabalho do camponês), podendo dedicar-se inteiramente ao treinamento e serviço militar. Formou-se assim uma camada de grandes proprietários, ligados uns aos outros por laços de suserania e vassalagem e que, exploravam o trabalho do camponês, fosse este livre (vilão) ou semi-livre (servo).

Entre os diversos historiadores ainda não existe um acordo sobre o ideal conceito de Feudalismo. Nesse momento, utilizaremos um conceito de um dos maiores especialistas em História da Idade Média:

Um sistema de organização econômica, social e política baseado nos vínculos de homem a homem, no qual uma classe de guerreiros especializados – os senhores –, subordinados uns aos outros por uma hierarquia de vínculos de dependência, domina uma massa campesina que explora a terra e lhes fornece com que viver (Jacques le Goff).

A sociedade feudal, de forma equivocada, costuma ser associada a anarquia política, pois durante esse período não havia uma forte centralização do poder. Uma infinidade de senhores passou a exercer nas suas terras as funções inerentes ao estado, como elaborar leis, julgar, castigar, cobrar impostos e mobilizar exército.

A linhagem feudal impunha severos deveres morais, militares e econômicos a seus membros, e quanto maior fosse a parentela mais prestígio ela desfrutava. Como nesta época não havia o Estado com seu território definido e suas próprias leis, nem língua, costumes e hábitos nacionais, o indivíduo só era respeitado na sua comunidade; fora dela era um desconhecido.

Mas apesar de sustentar economicamente toda a sociedade feudal o camponês era um ser desprezado pelos integrantes dos demais grupos sociais, sendo muito difícil encontrar um documento que reconhecesse e elogiasse a sua função. Na citação abaixo, retirada de uma novela de cavalaria, encontra-se a seguinte descrição de um habitante do campo:

[...] Um vilão, que se parecia a um mouro por sua monstruosa e desmedida fealdade, criatura mais feia do que se poderia dizer com palavras, estava sentado em cima de um tronco, com uma grande maça nas mãos. Ao aproximar-se dele, vi que tinha uma cabeça muito grande, maior que a de um cavalo ou outro animal de maus modos, o cabelo eriçado, a testa pelada, as orelhas enormes [...]

Segundo o que diz um tratado escrito por volta de 1186, os camponeses não estavam nem mesmo preparados para o amor:

[...] Ao agricultor lhe basta o trabalho diário e os prazeres ininterruptos do arado e do enxadão. Porém, se alguma vez chegasse a suceder – raro seria – que fosse ferido pela flecha do amor, o que vai contra a sua natureza, não convém ensinar-lhe a doutrina do amor, pois enquanto pensam em atividades alheias a sua natureza, sentiremos que os proprietários dos homens, que costumam frutificar graças a seu trabalho, deixam de produzir por falta de alguém que as faça frutificar [...]

Observe na citação o desprezo pelo camponês aliado à constatação do caráter imprescindível do seu trabalho. Os grandes proprietários justificam com seu trabalho sem o qual não é possível produzir. É a expressão da realidade da época: essencialmente agrária, baseada nas relações de produção servis.

O poder central, embora continue a existir, só se efetiva mediatizado pela nobreza, o que significa, na prática, que para se exercitar, o poder do rei depende da sanção da nobreza, já que não possui um exército profissional, nem recursos para exercer através de seus próprios funcionários as ações administrativas e judiciais.

Assim como a crença que inspirava a religião cristã, para a qual o Pai, o Filho e o Espírito Santo compõem uma divindade una, a sociedade feudal também deveria projetar sua unidade baseada em três componentes: as pessoas que rezavam, as pessoas que combatiam e as pessoas que trabalhavam. Estas ideias aparecem claramente por volta do século XI e estão formuladas nas palavras de um bispo de nome Adalberão, que escreveu:

Tripla é pois a casa de Deus, que se crê una: embaixo uns rezam, outros combatem, outros ainda trabalham; os três grupos estão juntos e não suportam ser separados; de forma que sobre a função de um repousam os trabalhos dos outros dois, todos por sua vez entreajudando-se.

Desenvolvimento urbano

Além das cidades, onde se desenvolveu o comércio, surgem na Europa, espaços temporários de encontros de comerciantes, as feiras. Esses encontros aconteciam duas a três vezes por ano, em algumas cidades europeias. Com o grande desenvolvimento do comércio e da indústria essa feiras se tornaram periódicas e fixas. As feiras contavam com a proteção dos senhores feudais, que em troca cobravam impostos dos comerciantes.

As mudanças provocadas pelo incremento comercial e urbano provocaram mudanças nas relações entre servos e senhores. Estes aboliram algumas obrigações servis e passaram a exigir o pagamento em dinheiro ou em parte do excedente agrícola. Com isso, observa-se uma mudança na noção de riqueza existente até então. Os senhores de terras passam a aumentar seus rendimentos, agora não mais apenas pela posse de terras, mas pelo acúmulo de renda em dinheiro.

Por outro lado, ocorre também que alguns camponeses passam a obter rendas vendendo seus excedentes nos mercados locais. Grande parte passa a abandonar as lavouras, especializando-se no artesanato e no comércio.

Texto complementar: O papel da mulher na Idade Média

O trabalho feminino teve incontestável significado na vida econômica das cidades. A superioridade numérica em parte explica essa importância. O que ocorria é que na aristocracia o excedente feminino era relegado aos conventos e, entre o povo, ao mundo do trabalho.

É interessante observar a tradição monástica antifeminina, que persistiu em toda a Idade Média. Um monge do século XII, numa obra poética intitulada De contemptu feminae, enumera uma porção de vícios femininos. As mulheres são, segundo ele, ignóbeis, pérfidas, covardes, corrompem o que é puro e aviltam as ações humanas. Seus pecados são como grãos de areia:

Toda mulher se alegra ao pensar no pecado e ao praticá-lo.
Nenhuma é boa, se alguém assim acha
Porque a mulher é coisa ruim
E quase nada de bom existe nela.

Na França existiram pequenas e grandes senhoras feudais. Na região de Champanha entre 1152 e 1284, de 279 possuidores de domínios territoriais, 58 eram mulheres, damas ou moças. A complexidade do feudalismo gerou um profundo desacordo entre a teoria e a prática. Não nos admira encontrar, na série de inquéritos judiciais ordenados por São Luís na segunda metade do século XIII, as reclamações de inúmeras pequenas feudatárias pedindo indenizações pelos abusos cometidos pelos oficiais do rei .

MACEDO, José Rivair. A mulher na Idade Média. São Paulo: Contexto, 1992. p. 31-32.

As corporações de ofício

Uma instituição típica da sociedade medieval foi a corporação de ofício. Eram associações que organizavam a produção e a distribuição de determinados produtos, reunindo profissionais do mesmo ramo, como por exemplo os sapateiros, ferreiros, alfaiates.

As corporações atuaram como incentivo para o aumento da produção. Os comerciantes manufatureiros foram obtendo cada vez mais lucros o que gerou um crescente acúmulo de capitais, nas mãos de uma nova classe, que passou a ser denominada de burguesia.

A grande finalidade das corporações era evitar a concorrência entre os artesãos, tanto locais como de outras cidades, e adequar a produção ao consumo local. As corporações fixavam o preço do produto, controlavam a qualidade das mercadorias, a quantidade de matérias primas e fixavam os salários dos trabalhadores.

O choque entre os senhores feudais e a burguesia

O desenvolvimento urbano e comercial, insere modificações radicais na vida da sociedade europeia ocidental, na Baixa Idade Média. Alteram-se as ideias e os costumes, favorecendo maior liberdade e tolerância. As cidades tornam-se palcos de discussões de novas teorias e conhecimentos orientadas pela burguesia, que pretende nesse momento adaptar-se aos novos tempos.

A crescente burguesia inevitavelmente entra em choque com a aristocracia feudal, que naquela época dominava praticamente todos os setores da sociedade medieval. Apesar dos incontáveis conflitos entre os dois grupos, a burguesia só irá se impor como classe dominante no século XVIII, após a Revolução Industrial.

Um dos principais pontos de discórdia entre os senhores feudais e a burguesia dizia respeito ao conceito de riqueza. A riqueza para um senhor feudal, estava na terra. A sua importância social era medida a partir do número de seus dependentes e agregados. Já a burguesia era conhecida pela sua avareza, pela preocupação em poupar e investir lucrativamente as riquezas monetárias adquiridas, por administrar zelosamente os seus bens.

De forma crítica, um burguês de Siena via assim os gastos desnecessários da nobreza:

[...] Concede hospitalidade frequentemente por cortesia, age como avalista das dívidas dos amigos [...] arma conspirações, processos, visitas às cortes, prepara casamentos, faz amor com as mulheres, joga dados [...] toma empréstimo com usura [...] (Buoncompagno de Sigma apud J. H. Mundy, Europe in high middlle ages: 1150-1309, p.255).

Entretanto do ponto de vista da aristocracia e do clero, observe uma apreciação feita por um prolixo autor catalão, que viveu entre 1235 e 1315, ridicularizando a burguesia, como mostra o documento abaixo:

[...] Quase todos os comerciantes e artesãos querem ser burgueses, ou desejam que os seus filhos o sejam. Mas deveis saber que não há ofício mais perigoso que a condição de burguês e a que seja mais rápida [...] Nenhum homem tem a sua vida mais curta como o burguês. E sabeis por quê? Porque ele come muito e não faz nenhum exercício [...] Nenhum homem incomoda tanto a seu amigo como o burguês pobre (Ramon Llull apud J. H. Mundy, op. cit. p. 249).

A situação da Igreja Católica na Idade Média

Durante a Idade Média, a Igreja Católica experimentou seu momento de maior poder e expressão na sociedade. Toda a vida civil estava regulada pelas observações religiosas.

As estações do ano agrícola, as reuniões das assembleias consultivas, o calendário anual eram marcados pelas atividades religiosas.

A vida cotidiana era toda impregnada por pequenos rituais católicos, que demonstravam o grande poder da religião. As doenças epidemias e catástrofes eram geralmente atribuídas ao Diabo, e eram resolvidas por meio de exorcismos, sinais da cruz e outros simbolismos católicos. O poder da Igreja diferenciava-se dos demais, uma vez que além do território sob sua jurisdição política ela tinha o poder espiritual sobre quase todo o território europeu.

Esse domínio, construído durante a Idade Média, consistia em estar presente na vida das diferentes camadas sociais. Era a Igreja que representava, pela sua função religiosa, a segurança para a população medieval atemorizada com a morte e, sobretudo, com o que pudesse ocorrer depois da morte. Essa influência, a princípio puramente espiritual, passa a estender-se para o político, na medida em que eram os papas que coroavam os imperadores, nas cerimônias de sagração.

Entre os nobres a Igreja atuava como fornecedora de justificativas religiosas, para as guerras contra os infiéis - as Guerras Santas. Entre os movimentos mais conhecidos da Idade Média, orientados pela Igreja, estão as Cruzadas, que contaram com o apoio dos dirigentes políticos das monarquias feudais, para retomar a Terra Santa , então em poder dos turcos.Entretanto os interesses econômicos e sociais rapidamente superaram os motivos religiosos, que em um primeiro momento serviram de incentivo aos movimentos cruzadísticos.

No plano intelectual a Igreja Católica foi durante o período medieval, a guardiã do conhecimento sistematizado, uma vez que as bibliotecas ficavam em seu poder.

O clero era constituído na sua maioria por indivíduos ricos, que nem sempre possuíam vocação religiosa para praticarem a fé. A religião nesse momento também era vista como uma forma de enriquecimento fácil às custas de tributos dos camponeses e artesãos.

Ao longo de todo o período medieval a Igreja contou com diversos movimentos que tentaram reformar a Instituição nascidos no seio da própria Igreja. A Igreja enfrentou também grande número de guerras, movidas por reis, príncipes e senhores feudais, muitas vezes com o apoio da população, que lutavam contra o abusivo poder dos papas. Entretanto a Igreja saiu vitoriosa na maioria das vezes, mantendo sua unidade, até meados do século XVI, quando ocorreu o movimento da Reforma Protestante.

Durante a Idade Média as relações da Igreja com os banqueiros encontraram um único obstáculo: os juros. Entendia-se que um usurário, ao exigir uma importância maior e proporcional à duração do empréstimo, estava vendendo algo que pertencia somente a Deus (o tempo). Este problema, entretanto acabou sendo contornado. E enquanto se fazia uma cuidadosa revisão dos dogmas da religião, aos “vendedores do tempo” restava a possibilidade, aplicada a todos os demais pecados, de arrepender-se e doar aos pobres e à própria Igreja parte da riqueza acumulada durante toda a vida.

O homem medieval vivia aprisionado em seu pequeno mundo. As informações sobre a Ásia e a África eram muito esparsas e contraditórias. A América não fazia parte dos mapas. Os mercadores eram em geral homens melhor informados do que o restante da população. Estes procuravam compreender as diferenças das civilizações e, ao mesmo tempo, integrá-las dentro da ótica do cristianismo. Com Marco Polo, viajante do século XII, podemos perceber duas grandes questões: as dificuldades em se definir a geografia do globo e o peso ético que a narrativa bíblica impunha aos seus relatos.

O que mais surpreendia o ouvinte medieval, era a exuberância das descrições sobre reinos distantes e não a geografia dos continentes. Cada região era descrita através de cenas cujo impacto fixava uma determinada imagem:

O rei anda também todo nu, como os outros, mas cobre a sua virilidade com um pano mais rico, e usa um colar de ouro, que é uma fiada de safiras, rubis, esmeraldas e outras pedras preciosas. Também usa posto no pescoço um cordão com 104 pérolas grandíssimas e rubis de grande valor. E são 104 pérolas e pedras, porque tem que dizer, todas as manhãs e todas as noites, 104 preces ou invocações aos seus ídolos. É que lhe mandam a fé e os costumes; assim o fizeram seus antepassados, e assim o faz ele, e é por isso que usa um tal colar[...] Contei-vos tudo isto, mas no entanto ainda me fica muita coisa maravilhosa por dizer. Sabei que este rei tem quinhentas mulheres legítimas [...] (O livro das maravilhas).

Numa época em que ouvir valia mais do que ver, os olhos enxergavam primeiro o que se ouvia dizer; tudo quanto se via era filtrado pelos relatos de viagens fantásticas de terras longínquas, de homens monstruosos que habitavam os confins do mundo conhecido. Aos poucos, talvez com traumatismos, as evidências da novidade cresceriam sobre o acervo milenar do imaginário europeu, destruindo sonhos e fantasias, somando-se a outros elementos desencantadores do mundo feudal.

O que era a realidade da terra para o homem do século XIV? Acreditava-se na existência do Equador, dos trópicos, de cinco zonas climáticas, três continentes, três mares, doze ventos. A Europa setentrional e o Atlântico já se confundiam com o imaginário, sendo descritos quase como ficção. Mais tarde a expansão ultramarina desenrolou-se pois sob forte influência do imaginário europeu tanto na vertente positiva quanto na negativa.

A expansão nesse momento é multifacetada, ou seja, meio real, meio fantástica, meio comercial, meio mental, ligado à própria estrutura do comércio do Ocidente medieval, importador de produtos preciosos longínquos, com suas ressonâncias psicológicas.

As crises dos séculos XIV e XV

A crise que assolou a Europa Ocidental, nos séculos XIV e XV vem acompanhada do espírito da modernidade que começou a rondar a cabeça do homem europeu gerando fortes modificações políticas, econômicas , sociais e religiosas no sistema vigente . O regime feudal passou a sofrer fortes pressões internas e externas, que o modificaram, e muitas de suas estruturas entraram em colapso.

Inúmeros fatores são apontados para explicar essa crise feudal, considerada maior do que todas as anteriores que o Feudalismo havia enfrentado, o que acabou por levar o sistema a um lento declínio.Alteraram-se as concepções de tempo e de espaço.

Um novo engenho simboliza muito bem esta passagem: o relógio. Dividir o espaço que separa um dia do outro em 24 partes iguais é um exercício matemático que exige uma nova forma de percepção da natureza. No transcorrer do século XV observamos que, cada vez mais, dois tempos convivem paralelamente: o tempo da igreja, regido pelo sino, pela oração, dom inseparável do homem, e o tempo laico, organizado matematicamente pelo relógio, pelo mercadores, possíveis de expropriação.

O tempo passava, a sociedade dividia-se cada vez mais e as contradições se expandiam tornando o sistema feudal incompatível com a realidade social.

No plano social rebeliões camponesas surgem em função da superexploração do trabalho , praticada pelos senhores feudais, principalmente após a ocorrência da Peste Negra, que chegou a matar quase um terço da população europeia, desorganizando a produção e provocando fome. Isso acaba por gerar grandes revoltas nas quais os camponeses queimaram castelos e assassinaram senhores. A repressão a esse movimentos foi enorme, uma vez que a nobreza e o clero passam a temer por sua sobrevivência.

A população gemia sob o peso das obrigações crescentes e, aqui e ali, começaram a acontecer revoltas isoladas. Enquanto as revoltas camponesas sucediam-se, nas cidades cresciam as diferenças entre os ricos mercadores e mestres de corporações, por um lado, e os companheiros mais pobres. Mais do que isto, acentuava-se a oposição entre os empreendedores proprietários e os trabalhadores não proprietários, cujo número crescia proporcionalmente à miséria que se abatia sobre os trabalhadores do campo

A Peste Negra encontrou um campo propício para sua difusão na pobre, faminta e enferma sociedade medieval. As narrativas da peste são dramáticas, como nesta de um cidadão de Siena:

[...] Pai abandonava filho, esposa abandonava marido, irmão abandonava o outro; porque a enfermidade parecia atacar através da respiração e da visão. E assim eles morriam. Ninguém podia ser encontrado para enterrar os mortos por dinheiro ou por amizade. Os membros de uma família traziam seu morto para o fosso da melhor maneira que podiam, sem sacerdotes, sem ofícios divinos. Nem o sino [dos mortos] tocava.

No plano econômico a expansão do comércio e do mercado era um fato que marcava o período da transição do Feudalismo para o Capitalismo. A burguesia enriquecia cada vez mais, administrando grandes negócios, que passam a ser incompatíveis com o sistema feudal.O enriquecimento crescente do burguês, leva a um aumento do poder de atuação,dentro do terceiro estado, derrubando inclusive as antigas corporações de ofício. Outro fator gerador de crise foi o esgotamento das fontes de minérios, necessários para a cunhagem de moedas, levando a constantes desvalorizações da moeda.

O incremento das grandes navegações amplia os horizontes do comércio .O homem medieval vivia aprisionado em seu pequeno mundo. A possibilidade de conhecer e dominar terras, até então conhecidas apenas pelos relatos de viajantes audaciosos, como Marco Polo por exemplo, despertam o desejo do conhecimento real das maravilhas descritas até aquele momento.

No plano político os senhores feudais encontraram como um meio de resolver todos esse problemas que perduravam, a unificação do poder em grandes regiões formando-se, desse modo, os Estados Nacionais como Portugal, França, Espanha. O interesse da burguesia em organizar um sistema político, mais coerente com suas necessidades de expansão do comércio acaba por auxiliar a formação dessa nova estrutura política-econômica. A partir de então volta a ter prestígio junto a população europeia ocidental a figura do rei.

No plano intelectual, a ordem do mundo, tanto da natureza quanto da sociedade já não parece tão clara. Movidos pela curiosidade, o homem começa a investigar e observar os fenômenos da natureza. Através da teoria humanista, a figura do homem passa a ocupar um papel de destaque na nova concepção de mundo

No plano religioso toda essa conjuntura leva também ao surgimento de críticas fortes à Igreja Católica, aos padres, aos abusos econômicos dos tributos cobrados por ela. Críticas estas que já tinham sido feitas em períodos anteriores, e que naquele momento não encontraram terreno fértil para se expressar, como no séculos XIV e XV.

Embora as Cruzadas tivessem terminado no final do século XIII, os exércitos não foram desmobilizados. Assim, as disputas e guerras no Ocidente prosseguiram até meados do século XIV.Alguns exemplos desse conflitos foram a Guerra de Reconquista na Península Ibérica, a Guerra dos Cem Anos e as inúmeras rivalidades entre as cidades.

A crise dos séculos XIV e XV marca o início de um longo processo no decorrer do qual surgirão novas práticas econômicas e políticas, novas modalidades de relações sociais cujo resultado será a emergência do capitalismo.

O processo da transição do Feudalismo para o Capitalismo foi, portanto, longo e nada teve de uniforme. Desde os primeiros sinais evidentes da derrocada do Feudalismo, nos séculos XIV e XV, até o triunfo definitivo do Capitalismo no final do século XVIII, coexistiram características da sociedade medieval em desagregação e valores e práticas de uma nova realidade em formação. É esta coexistência entre o antigo e o novo e a progressiva afirmação e conformação do novo, que faz deste um típico período de transição.

É necessário considerar que a substituição do Feudalismo pelo o Capitalismo não se aplicou a todas as regiões europeias da mesma forma e nem ao mesmo tempo

Surgiram nessa época projetos políticos que diziam respeito às formas de um governante proteger e aumentar seu poder.Os filósofos passam a instruir os governantes sobre a arte de governar e os homens da corte sobre a importância do governo e sobre assuntos éticos, de maneira geral.

Texto complementar: A crise do século XIV

O longo processo de mudanças que a Europa ocidental atravessou entre os séculos XI e XIII encontrou, ao mesmo tempo, um freio e um acelerador na chamada crise do século XIV. Por mais que as técnicas agrícolas se tivessem aperfeiçoado nesse período, permaneciam ainda muito rudimentares para superar o desequilíbrio entre o crescimento geométrico dos habitantes e o crescimento aritmético dos alimentos. Mal nutrida, a população tornava-se vulnerável aos flagelos naturais e as pressões sociais. Uma colheita prejudicada por motivos climáticos, uma epidemia, uma guerra - cada um desses fatores podia desencadear o súbito aumento da mortalidade, que restabelecia o equilíbrio entre o número de habitantes e o volume de alimentos que se podia produzir.

No século XIV, todos esses fatores se fizeram presentes. Entre 1313 e 1317, uma série de más colheitas serviu de estopim. A partir de 1328, disputas dinásticas deram início à Guerra dos Cem Anos. Após inúmeras outras, de caráter local, a Grande Peste Negra (1348) dizimou algo entre um terço e metade da população europeia. Como consequência, a produção diminuiu e desorganizou-se o comércio.

No entanto, essa sucessão de tragédias também criou as condições para novas transformações. A fome conduziu muitos habitantes dos campos para as cidades. Os senhores sem camponeses tiveram de recorrer à contratação de trabalhadores avulsos. Os camponeses sem senhor experimentaram uma liberdade que até então lhes era desconhecida. Os grandes mercadores, enriquecidos com o comércio a longa distância, viram a oportunidade de adquirir terras e, com elas, o prestígio que proporcionava a condição de proprietário. E procuraram aplicar à produção agrícola os mesmos critérios de lucratividade a que se tinham habituado em sua faina mercantil diária.

Grosso modo, a crise do século XIV tornou alguns ricos ainda mais ricos e a maioria dos pobres ainda mais pobres. De um lado, muitas vezes, o desespero conduziu estes últimos às revoltas (as jacqueries, ou seja, o movimento de um jacques, um joão-ninguém). De outro, a concentração da riqueza em um número menor de mãos propiciou novos investimentos. Os requintados tecidos de lã das cidades italianas, por exemplo, foram suplantados por outros mais baratos, como a lã da Inglaterra e o fustão e o linho da Holanda. Novas rotas comerciais foram abertas. Adotaram-se práticas comerciais mais simples e rápidas. As monarquias, em virtude da guerra e das inquietações sociais, fortaleceram-se.

Essa intensificação das atividades econômicas, porém, ficaria tolhida enquanto a Europa não encontrasse novas fontes de suprimento de metais preciosos para servirem de meios de troca que representassem a maior quantidade de riqueza comercializada. Preparou-se, assim, a expansão marítima.

MACE, Eduardo & RIBEIRO, Marco Aurélio de Sá, História do Brasil ATR v.1.0., Rio de Janeiro, ATR, 1995 (CD-ROM).

História do Brasil

Populismo

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O governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960)

Juscelino assume o poder em clima de agitação política. Carlos Lacerda ataca J.K., alegando ter havido fraude eleitoral.

Nos primeiros anos de seu mandato, Juscelino teve que enfrentar dois incidentes: Jacareacanga em (11/12/1956) no Piauí e Aragarças (02/12/1959) em Goiás. Esses movimentos foram levados a efeito por alguns oficiais da Força Aérea Brasileira e, segundo os conspiradores, ambos os movimentos ocorreram não propriamente contra o presidente, mas por oposição à articulação de forças esquerdistas na área governamental.

Realizações desta fase

  • Plano Metas: subordinava-se ao "binômio econômico" – energia e transportes. Notabilizou-se pelo vigoroso movimento de construção de estradas, usinas hidrelétricas e implantação de indústrias automobilísticas e naval.
  • Brasília (Nova Capital Federal) – inaugurada em 21 de abril de 1960.
  • SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste).
  • Hidrelétricas de Furnas e Três Marias.
  • Criação da USIMINAS e COSIPA.
  • No plano externo, propôs a criação da O.P.A. (Operação Pan-Americana), insistindo junto aos EUA por uma política mais efetiva de cooperação econômica com a América Latina.

A crise deságua em 1959

Em 1959 o aumento do salário mínimo foi de 30%, o que veio contribuir para o crescimento dos preços dos produtos de primeira necessidade.

A situação social era de alarme, devido à inflação. Cada classe e setor desejava que a carga fosse suportada, primeiro por outro grupo.

Nesse período a oposição cresce consideravelmente, devido, principalmente, à sucessão presidencial, que já estava sendo definida e propagada. No entanto, os partidos continuavam fracamente organizados. O PSD-PTB renovava a aliança eleitoral. Surge nesta época, no cenário político, um líder populista que começou a ameaçar o equilíbrio da balança política, o governador do Rio Grande do Sul, eleito em 1958, Leonel Brizola, que passa a agitar diretamente a massa de eleitores.

A campanha sucessória tem início com o lançamento da candidatura do Marechal Lott, apoiado pela coligação PSD-PTB. Lott logo se mostrou um candidato fraco, sem experiência na área política. E a UDN apoia a candidatura de Jânio Quadros, governador de São Paulo, com discurso antipolítico e que, a princípio, se lança como candidato através do PDC (Partido Democrata Cristão). Jânio encarnava os ideais da classe média, que desejava um governo dinâmico, porém honesto. Vendo o seu prestígio crescer dia a dia, Jânio intensificou o seu estilo personalista, atraindo todas as classes pelo seu próprio modo de ser.

Apesar de apoiado pela UDN, Jânio fazia questão de frisar que não tinha nenhum compromisso com qualquer partido político. O símbolo de sua campanha era a "Vassoura" (varreria toda a sujeira do país).

Para a vice-presidência, o PSB-PTB lançou a candidatura de João Goulart, e a UDN, de Milton Campos, ex-governador de Minas Gerais.

História da América